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DIVERSIDADE
Na busca por liberdade como mulher trans, Márcia viu todas as amigas morrerem
Desafiando estatística, a cabeleireira tem o privilégio de envelhecer como mulher trans, algo difícil na década de 1980
09 SET 2019
Por Campo Grande News
09:21

Foto: Danielle Valentim/Campo Grande News
Aos 16 anos, Márcia Maria Baltazar Pires, hoje com 53, já aplicava no próprio corpo qualquer hormônio que “dava peito”. Na busca incessante para igualar o corpo à essência ou simplesmente de tentar sobreviver como uma mulher trans na década de 1980, a cabeleira viu todas as amigas de sua geração morrerem.

A cabeleireira desafia estatísticas, vive um dia de cada vez e garante que a maturidade trouxe calma ao coração. “Eu tenho 53 anos e lá atrás não tinha nem nomenclatura. Se eu chegasse no médico e dissesse: doutor, eu quero fazer uma terapia hormonal. Ele me internava como louca. Mas isso não é tão antigo assim. Ainda hoje, muitas pessoas trans não procuram atendimento para as doses corretas de hormônio", conta.

O risco era o de menos, diante da vontade de mudar de corpo. "Uma ia falando para outra o que tinha dado certo e íamos tentando. As colegas achavam que quanto mais hormônio tomassem, eles iriam explodir e virar a globeleza. Hoje, temos informação de que uma overdose de hormônio feminino, transmuta para testosterona, ou seja, dá o resultado reverso. Antes ninguém sabia disso”, conta.

O fato de não poder ser completamente quem é, incomodou Márcia por muitos anos. Aos 23 anos, em meio a uma crise de depressão tentou até se amputar. “Quando se toca no assunto da cirurgia de redesignação, as pessoas julgam achando que se limita ao sexual. E não é. A cirurgia é para que de uma vez por todos você se reconheça, pelo que você é, e o que você sente. Ao longo na minha vida isso me privou muito, porque eu não era nem uma coisa, nem outra. A travesti, por exemplo, é diferente. Ela está feliz do jeito que ela é. Ela gosta da aparência feminina, mas ela não quer ser mulher.”, explica.

Prisão perpétua - Márcia costuma comparar a vida de uma mulher trans, que ainda não passou pela cirurgia, a uma prisão perpétua. O procedimento de redesignação sexual é a libertação do cativeiro.

“Se olhar no espelho e não se reconhecer, é uma prisão perpétua. Essa cirurgia é como ser liberta de um cativeiro. Me incomoda o uso da Bíblia para a justificar a ignorância das pessoas. Ser transexual é lutar todos os dias contra uma sociedade machista, transfôbica e uma transfobia que não vem somente dos héteros. Porque também existe a transfobia do menino gay para a mulher trans. Eu acredito que eles acham que a trans é uma desertora da militância gay”, pontua.

Não há vagas – O emprego é sobrevivência. Mas o preconceito, exclusão e dificuldade no acesso à educação são desafios diários, não somente a transexuais, mas a travesti e transgêneros.

“Aí ninguém sabe porque a maioria cai na prostituição. Todo mundo tem conta para pagar e mesmo assim ninguém dá emprego para ela. Eu ainda faço parte da minoria que não tive esse problema. Porque eu além de buscar outros caminhos tive muito apoio familiar, principalmente dos meus irmãos e do meu pai”, conta.

Apoio – Nascida em um lar com cinco irmãos, Márcia faz parte de uma minoria que recebeu apoio da família. A cabeleireira e o pai sempre tiveram problemas, mas a partir do momento em que ela assumiu sua transexualidade, o jogo virou e o genitor entendeu que ele teria uma filha para proteger.

“Eu tinha medo que meu pai descobrisse, porque ele era o general de um quartel, afinal tive cinco irmãos. Nós nunca nos entendíamos, mas depois que eu me assumi, tudo mudou. Parece que ele tinha ganhado uma filha para proteger e acabaram as nossas diferenças”, conta.

Medo – O Brasil ainda é o país que mais mata LGBT+ no mundo. Mas Márcia afirma que a violência mudou de contexto. Há 30 anos, as “travestis” como todas as transexuais eram chamadas só poderiam ser vistas nas ruas com fama de ponto de prostituição.

“Eu me esforcei muito para ser um menino, porque eu sou de uma época que não se tinha a liberdade de hoje. Na minha época eu não colocava o pé para fora de casa, por medo. Sou da época que era divertido bater em pessoas como eu, era divertido matar pessoas como eu e mais ainda era impune porque matar alguém de nós “era um livramento” para a sociedade. Você corria das pessoas e até da polícia. Hoje sou livre, eu não andava de ônibus. Antes, quando não era um pseudo-religioso apontando o dedo, era um marginal querendo se divertir as suas custas”, frisa.

A violência por parte da polícia era explícita. Se aproximar de uma viatura, por exemplo, era certeza de um tapa no rosto. Mas tinha alguns que salvavam, garante Márcia.

“Certa vez estava em um bar e ocorreu uma batida policial, enquanto eu estava no banheiro. Quando voltei o estabelecimento estava vazio e todos ao lado de fora na parede. Como eu não sabia se deveria ir para o lado feminino ou masculino decidi me sentar. O oficial responsável pela equipe se aproximou e veio conversar comigo. Ele chegou a dizer que o bar não era um bom lugar para eu frequentar, então, eu percebi que de alguma forma ele me protegeu, me deu um toque. Esse era um em um milhão. Às vezes eles nem desciam da viatura. Eles te chamavam na janela, pediam para você abaixar como se fossem pedir informação e te acertavam com um tapa no rosto. Eu aprendi a ficar em uma certa distância e dizia que era boa de audição. Mas vi muitas apanharem por diversão”, lembra.

As histórias vividas por Márcia preenchem, facilmente, um livro de sobrevivência. Ela mesma, admite não saber como ainda está viva.

“Já aconteceu de eu estar indo para casa e um motorista gritar: e aí, viado, olha o presente para você! Ele sacou uma arma e naquele momento eu travei e escutei o zumbido da bala passando por mim. Trans em mudo hétero não existia. Se eu estivesse na 7 de Setembro, tudo bem, mas se eu estivesse fora desse contexto, as pessoas não aceitavam. Outra vez, eu andava pela calçada quando um carro se aproximou e com um cinto me acertou nas costas com a fivela. Sorte minha que estava com jaqueta grossa”, lembra. 

Tratamento é vida – A cabeleireira garante que a importância do ambulatório é extrema. A tranxessualidade sem tratamento, mata.

“Tem suas deficiências? Tem. Mas já é um passo para a saúde pública, mesmo. É difícil ver comentários em matérias de que o hospital está sendo ocupado com coisas desnecessárias. A transexualidade sem tratamento, mata. Mata de depressão, mata por medicamentos, mata por conta do silicone industrial. Eu sou a última dos moicanos, sou uma sobrevivente. Eu não tenho mais amigas, porque da minha geração todas já morreram. Assassinadas nas ruas ou por aplicarem medicação ou silicone por conta própria”, conta.

Márcia chegou ao ambulatório no HU há dois anos e está mais que preparada para a redesignação sexual. Porém, a demanda é alta e a fila chega a 2023. A cirurgia é um sonho, mas a maturidade já acalmou o coração de Márcia.

“A fila do SUS é astronômica, mas se eu tiver pressa eles dão o encaminhamento dizendo que eu iniciei o processo aqui e me mandam para algum lugar, porém uma das coisas que maturidade me trouxe é a calma. O desespero de querer tudo para ontem já se foi. A cirurgia é um sonho e estou esperando. O médico achou que eu ia desistir e eu disse para ele que se a cirurgia fosse marcada eu só perguntaria: onde é a sala?”, garante.

A primeira parte do tratamento hormonal de Márcia foram os exames. A partir dos resultados, o ginecologista dr. Ricardo, responsável pelo ambulatório, passa a dosagem correta. Não há um padrão. “No meu caso eu já tenho pouca testosterona, é quase ao nível de uma mulher cis, na menopausa. Mas eu tenho amigas minhas que tomam 200 ml do mesmo hormônio”, explica.

Márcia já sabe o quer e o tratamento assinou embaixo. Porém, a cabeleireira garante que para a nova geração, o acompanhamento de dois anos é primordial. “Muitos estão indo pela modinha, glamour e estão se arrependendo. A redesignação é irreversível, não é brincadeira. Muitas se arrependem. No Brasil nem tanto porque há esse acompanhamento de dois anos, mas fora do Brasil, que basta ter cash, são muitos casos de arrependimento. A questão trans não é simplesmente ter uma vagina. Vai muito além disso é a minha essência. A minha essência tem de estar correspondendo”, finaliza.

Tratamento em Campo Grande - O Ambulatório Transexualizador do Humap-UFMS realiza atendimentos psicológicos desde janeiro de 2017. Em abril de 2017 começou a oferecer tratamento hormonal.

O Humap-UFMS agora integra a pequena lista de hospitais públicos que podem realizar o procedimento cirúrgico. Antes apenas hospitais de Goiânia, Porto Alegre, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre estavam aptos.

Os pacientes que desejam realizar a cirurgia de redesignação sexual são primeiramente acolhidos por assistentes sociais, depois passam por consultas com psicólogos e, posteriormente, iniciam o tratamento hormonal. Em homens trans (que nasceram mulheres) é aplicada testosterona injetável. Já nas mulheres trans (que nasceram homens) é utilizado estrogênio e um antiandrogênico (espironolactona ou ciproterona).

Antes de começar a atender, o Ambulatório Transexualizador já tinha uma demanda de aproximadamente 300 transexuais. A ATMS (Associação dos Transexuais de Mato Grosso do Sul) é a maior responsável pelos encaminhamentos.

Qualquer cidadão que procurar o sistema de saúde público apresentando a queixa de incompatibilidade entre o sexo anatômico e o sentimento de pertencimento ao sexo oposto ao do nascimento tem o direito ao atendimento humanizado, acolhedor e livre de qualquer discriminação.

Em maio, uma equipe de mastologistas, cirurgiões, enfermeiros, anestesistas e instrumentadores do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Humap-UFMS), realizaram a primeira mastectomia (cirurgia para retirada das mamas) em um paciente transexual na rede pública de saúde do estado de Mato Grosso do Sul.

Entenda as diferenças entre gênero, identidade e orientação:

Gênero: Construção social e cultural ligada às características do órgão sexual biológico de uma pessoa - aquele que receber ao nascer.

Identidade de gênero: É o gênero com o qual a pessoa se identifica. Não é relativo ao outro, mas sobre como ela reconhece a si mesma, independente do órgão sexual biológico.

Transexual/ transgênero: Quem não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Mulheres trans são aquelas que foram designadas como homens, mas se reconhecem como mulheres; homens trans foram designados mulheres ao nascer, mas se reconhecem como homens.

Cisgênero: Quem se identifica com gênero que lhe foi atribuído ao nascer. por exemplo, uma mulher cis é aquela pessoa designada mulher e que se reconhece como uma.

Orientação sexual: É o sexo pelo qual a pessoa sente atração. Está diretamente relacionado à preferência em relação ao outro. Pode ser heterosexual, homosexual, bisexual etc.